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Crise (IPC Fase 3) persiste devido aos impactos do El Niño e conflito

  • Previsão de Segurança Alimentar
  • Moçambique
  • Junho 2024 - Janeiro 2025
Crise (IPC Fase 3) persiste devido aos impactos do El Niño e conflito

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  • Mensagens-chave
  • Análise resumida
  • Contexto da segurança alimentar
  • Condições actuais de segurança alimentar em Junho 2024
  • Análise das principais fontes de alimentos e renda
  • Assistência alimentar humanitária
  • Resultados actuais de insegurança alimentar aguda em Junho 2024
  • Principais pressupostos sobre condições atípicas de segurança alimentar de Junho de 2024 a Janeiro de 2025
  • Resultados projectados de insegurança alimentar aguda entre Junho de 2024 e Janeiro de 2025
  • Eventos que podem alterar os resultados projectados de insegurança alimentar aguda
  • Anexo: Resultados de segurança alimentar mais prováveis e zonas que recebem níveis significativos de assistência humanitária
  • Mensagens-chave
    • A insegurança alimentar aguda de Crise (IPC Fase 3) deverá prevalecer de Junho a Setembro de 2024 nas zonas afectadas pela seca induzida pelo El Niño e nas zonas afectadas pelo conflito em Moçambique devido a colheitas fracas, oportunidades de geração de renda limitadas e incapacidade de participação em actividades normais de subsistência. Além destes choques, os preços dos alimentos acima da média dificultarão o acesso das famílias pobres e muito pobres aos alimentos nos mercados. Em Cabo Delgado, várias zonas que recebem assistência alimentar humanitária regular poderão registar “Estresse! (IPC Fase 2!).
    • A Crise (IPC Fase 3) deverá alastrar-se entre Outubro de 2024 e Janeiro de 2025, principalmente na região centro do país. O impacto da época de escassez, que inclui um rápido esgotamento das reservas de alimentos abaixo da média das famílias que conseguiram colher algumas das suas culturas, combinado a preços de alimentos acima da média e renda abaixo da média, levará a um aumento de áreas com Crise (IPC Fase 3), particularmente nas zonas afectadas pela seca induzida pelo El Niño.
    • As áreas de maior preocupação incluem as zonas semiáridas nas regiões sul e centro do país, que são remotas com acesso limitado aos mercados, e as zonas afectadas pelo conflito no sudeste de Cabo Delgado, onde a insegurança é elevada.
    • Em Maio, os parceiros do Grupo de Segurança Alimentar (FSC) prestaram assistência alimentar a cerca de 206 mil pessoas em Cabo Delgado e Niassa, cobrindo 40 por cento das suas necessidades alimentares mensais. No entanto, até Junho, apenas 18 por cento dos recursos necessários para a resposta humanitária planificada tinham sido assegurados. Os fundos limitados forçaram o PMA a reduzir a assistência alimentar em vários distritos, enquanto o agravamento da situação de insegurança levou à suspensão das actividades em Macomia Sede e Quissanga.

    Análise resumida

    As necessidades humanitárias poderão aumentar em meio a recursos limitados 

    Durante a época agrícola e chuvosa de 2023/24, a combinação de impactos da seca induzida pelo El Niño, cheias (algumas associadas à tempestade tropical Filipo) e conflito em Cabo Delgado está resultar em situações de Crise (IPC Fase 3) generalizada em todo Moçambique. As zonas mais afectadas pela seca induzida pelo El Niño e pelo conflito registam elevados níveis de insegurança alimentar aguda. Na maioria das zonas semiáridas do centro e do sul, bem como nas partes do sudeste de Cabo Delgado, prevalece a situação de Crise (IPC Fase 3). Existem oportunidades limitadas de geração de renda nas zonas semiáridas e remotas, levando à renda abaixo da média e baixo poder de compra. As famílias deslocadas pelo conflito estão entre as mais afectadas, com capacidade de resposta reduzida devido aos impactos dos ataques esporádicos e a um clima constante de tensão e medo, resultando em actividades agrícolas e outras fontes de renda abaixo da média. Os preços nos mercados locais são superiores aos do ano passado e à média de cinco anos, dificultando ainda mais o acesso aos alimentos nos mercados locais. 

    Na maioria das zonas semiáridas do centro e do sul, as reservas de alimentos das famílias esgotaram-se atipicamente cedo devido à escassez de cereais causada pela seca induzida pelo El Niño e consequentes colheitas fracas/fracassadas. A seca resultou em chuvas abaixo da média, distribuição espacial desigual e calor intenso. A precipitação durante a época foi inferior a 80 por cento do normal, com algumas zonas a receberem menos de 75 por cento (Figura 1). As culturas semeadas cedo foram perdidas devido à estiagem severa e ao calor intenso em Novembro, enquanto as culturas re-semeadas em Dezembro e Janeiro também fracassaram devido à estiagem em Fevereiro. As famílias pobres e muito pobres, sem reservas de alimentos e com produção própria abaixo da média, enfrentam dificuldades de geração da renda e acesso aos alimentos nos mercados locais devido às oportunidades limitadas de auto emprego e preços acima da média. Consequentemente, as famílias pobres e muito pobres nas zonas mais afectadas não conseguem satisfazer as suas necessidades caloríficas e deverão enfrentar Crise (IPC Fase 3), necessitando de assistência alimentar humanitária urgente.

    Figura 1. Percentagem da precipitação normal de Outubro 2023 a Maio 2024
    Percentage of normal rainfall from October 2023 to May 2024

    Fonte: USGS/FEWS NET

    Nas zonas afectadas pelo conflito, as necessidades continuam elevadas devido aos ataques esporádicos em curso, tensão persistente e ao medo de ataques. Em Abril, foi anunciado o início da retirada das forças da Missão da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC) em Moçambique (SAMIM), levantando preocupações sobre a situação de segurança. O anúncio seguiu-se a um período de aumento dos ataques por parte de Grupos Armados Não Estatais, incluindo ataques na província vizinha de Nampula. Apesar destes ataques esporádicos, a SAMIM conseguiu estabelecer algum nível de estabilidade ao reduzir com sucesso a capacidade dos insurgentes em 2021 e 2022, tendo permitindo o regresso de mais de 570 mil deslocados internos às suas casas até Agosto 2023. O anúncio da continuidade e aumento das Forças de Defesa do Ruanda (RDF) em Moçambique poderá mitigar parcialmente o impacto da saída da SAMIM. A actual situação volátil está a provocar deslocações e a impedir que milhares de famílias restaurem as suas formas de vida. A insegurança também representa um grande desafio para as organizações humanitárias, uma vez que devem gerir cuidadosamente os recursos limitados para responder às necessidades decorrentes do conflito e da seca induzida pelo El Niño.

    A produção de milho projectada para a época 2023/24 poderá estar abaixo da média devido aos impactos negativos de choques climáticos e conflito. As estimativas qualitativas da FEWS NET sugerem uma redução de 25 a 35 por cento na produção de milho em comparação com a média de cinco anos. Comparativamente, as estimativas com base em satélites dos parceiros científicos da FEWS NET, incluindo UCSB-CHC e NASA sugerem uma potencial redução de 40 por cento em relação à média de cinco anos. Como resultado, haverá uma oferta atipicamente baixa para o ano de consumo de 2024/25. A seca induzida pelo El Niño teve impacto nas principais zonas de produção, incluindo os planaltos das províncias de Tete, Manica, Sofala e Zambézia. As chuvas abaixo da média também afectaram partes do norte, particularmente a parte sul da província do Niassa, afectando significativamente os distritos de Mecanhelas e Mandimba, que fazem fronteira com o vizinho Malawi. Consequentemente, as importações para a campanha de comercialização de 2024/25 poderão estar acima da média. As importações de milho da África do Sul para Moçambique poderão estar abaixo da média e insuficientes para cobrir o défice nacional de 0,515 milhões de toneladas. Portanto, o milho deve ser procurado no mercado internacional para satisfazer as necessidades comerciais e humanitárias, e poderá levar mais tempo e ser mais caro para chegar às pessoas afectadas.

    Saiba mais 

    A análise neste relatório basea-se na informação disponível a 30 de Junho 2024. Para mais informações siga os seguintes links: 

    Abordagem da FEWS NET para análise da assistência alimentar humanitária


    Contexto da segurança alimentar

    Apesar do seu enorme potencial agrícola, Moçambique enfrenta desafios significativos de insegurança alimentar devido aos riscos climáticos e factores sociopolíticos. A maior parte do país é susceptível a fenómenos meteorológicos extremos, incluindo ciclones, cheias e secas, que podem afectar severamente a produção e disponibilidade de alimentos. Muito recentemente, a seca induzida pelo El Niño e tempestade tropical severa Filipo causaram a destruição generalizada de culturas, infraestruturas e formas de vida em partes do centro do país, dificultando a recuperação das famílias pobres e muito pobres. Estas catástrofes também levaram à deslocação de milhares de pessoas e agravaram ainda mais a situação de insegurança alimentar aguda rompendo a produção de alimentos e deslocando comunidades. Os elevados níveis de pobreza e insegurança alimentar crónica também tornam as famílias pobres e muito pobres mais vulneráveis à insegurança alimentar aguda face aos choques. Por exemplo, a taxa de baixa altura para idade em crianças com menos de cinco anos permaneceu em torno de 37 por cento , enquanto a fraca diversidade alimentar, cuidados de saúde inadequados e surtos frequentes de doenças contribuem ainda mais para a deterioração do seu estado nutricional. 

    Agricultura — predominantemente de sequeiro — é o principal sector económico em Moçambique com mais de 70 por cento da população a depender do sector para sua subsistência. No geral, os pequenos agricultores utilizam factores de produção e tecnologias limitados, o que resulta em baixa produtividade das culturas, e são muitos susceptíveis a fenómenos meteorológicos extremos. Por outro lado, os agricultores normalmente sofrem perdas pós-colheita elevadas, em média cerca de 30 por cento da produção, devido a infraestruturas de armazenamento inadequadas. 

    Normalmente, a produção agrícola é a principal fonte de alimentos e renda para as famílias pobres e muito pobres. A época de colheita principal em Moçambique começa normalmente por volta de Abril e termina por volta de Junho (Figura 2), o período da situação actual deste relatório. A segunda época em curso (principalmente para o cultivo de hortícolas) é praticada principalmente nas zonas baixas das regiões centro e sul, utilizando a humidade residual da época chuvosa anterior. A sementeira para a segunda época começa em Abril, com a colheita prevista de Agosto a Outubro. Apesar de algumas oportunidades de geração de renda associadas à época principal, Novembro a Fevereiro (Figura 2) representa a época de escassez típica do país, caracterizada pelo esgotamento das reservas de alimentos das famílias e pelos aumentos sazonais dos preços dos alimentos. As taxas de desnutrição aguda também aumentam sazonalmente durante esta altura.

    A província de Cabo Delgado, no norte do país, tem sido um centro de conflito desde 2017, assolada por uma insurgência liderada por grupos militantes islâmicos, geralmente referidos como Al-Shabaab. No auge do conflito, em 2021 e 2022, mais de 1 milhão de pessoas foram deslocadas e forçadas a fugir das suas casas, com destruição de infraestruturas e rompimento das economias locais. As actividades agrícolas foram severamente afectadas, com a produção agrícola significativamente reduzida. Actualmente, muitos agricultores ainda não conseguem ter acesso às suas terras agrícolas e mercados e não têm acesso ao emprego, o que reduz significativamente a sua capacidade de produzir alimentos suficientes e de geração de renda suficiente. Esta redução na disponibilidade e oferta de alimentos é ainda agravada pela destruição de infraestruturas, como estradas e mercados, o que dificulta o transporte e distribuição de alimentos. Como resultado, a maioria das pessoas nesta região depende da assistência alimentar humanitária.

    Figura 2: Calendário Sazonal para um ano normal no centro de Moçambique
    seasonal calendar for a typical year in central parts of Malawi

    Aceda aqui ao conjunto completo de calendários sazonais de Moçambique.

    Fonte: FEWS NET


    Condições actuais de segurança alimentar em Junho 2024

    O aviso prévio da insegurança alimentar aguda exige a previsão da situação com meses de antecedência de modo a dar os tomadores de decisão tempo suficiente para orçamentar, planificar e responder às crises humanitárias esperadas. Contudo, devido aos factores complexos e variáveis que influenciam a insegurança alimentar aguda, previsões definitivas são impossíveis. O desenvolvimento de cenários é a metodologia que permite à FEWS NET satisfazer as necessidades dos tomadores de decição, desenvolvendo um cenário “mais provável” do futuro. O ponto de partida para o desenvolvimento de cenários é uma análise robusta das actuais condições de segurança alimentar, que é o foco desta secção.

    Os principais princípios orientadores para o processo de desenvolvimento de cenários da FEWS NET incluem a aplicação do quadro de Redução do Risco de Desastres e uma perspectiva baseada em formas de vida para avaliar os resultados da insegurança alimentar aguda. O risco de uma família sofrer de insegurança alimentar aguda é uma função não só de riscos (como uma seca), mas também da vulnerabilidade da família a esses riscos (por exemplo, o nível de dependência da família da produção agrícola de sequeiro para alimentação e renda) e da capacidade de resposta (que considera tanto a capacidade da família para lidar com um determinado risco como a utilização de estratégias de sobrevivência negativas que prejudicam a capacidade de sobrevivência futura). Para avaliar estes factores, a FEWS NET baseia esta análise numa forte e profunda compreenção das formas de vida locais, que são os meios pelos quais uma família satisfaz as suas necessidades básicas. O processo de desenvolvimento de cenários da FEWS NET também tem em conta o Quadro de Formas de Vida Sustentáveis; as Quatro Dimensões da Segurança Alimentar; e o Quadro Conceptual da Nutrição da UNICEF, e está estreitamente alinhado com o quadro analítico da Classificação das Fases de Insegurança Aimentar (IPC).

    Principais riscos

    Conflito: Em Janeiro/Fevereiro de 2024, após uma diminuição notável de eventos de conflito em Cabo Delgado, ocorreram ataques esporádicos em zonas que anteriormente estavam relativamente seguras, levando a uma nova vaga de deslocados internos e contrariando a tendência anterior de pessoas deslocadas regressarem aos seus locais de origem. Os ataques de Janeiro e Fevereiro foram particularmente preocupantes porque ocorreram durante o pico da estação chuvosa de 2023/24, quando quase toda a população, incluindo os regressados, estava envolvida nas suas actividades agrícolas. Devido aos ataques e ao medo de mais violência, as pessoas abandonaram os seus campos agrícolas e buscaram locais seguros como deslocados internos, forçando-as a depender totalmente da ajuda humanitária como principal fonte de alimentos. Os ataques, combinados com fortes chuvas e cheias localizadas, abrandaram o ritmo de recuperação das formas de vida e retoma das actividades agrícolas em zonas relativamente seguras.

    Em Abril de 2024, a retirada progressiva das forças da SAMIM em Cabo Delgado começou no meio de ataques isolados que continuaram em comunidades remotas de Cabo Delgado, especificamente nos distritos de Macomia e Quissanga. Estes ataques esporádicos levaram ao deslocamento de muitas famílias para locais consideradas relativamente seguras. De acordo com o Relatório de Alerta de Movimentos da Organização Internacional para as Migrações (OIM), entre 10 de Maio a 21 de Junho de 2024, os ataques e o medo de ataques em Macomia e Quissanga causaram o deslocamento de cerca de 4.500 indivíduos, sendo aproximadamente 4.300 em Macomia e 250 em Quissanga, respectivamente.

    Condições meteorológicas: A época chuvosa e agrícola de 2023/24 foi significativamente afectada pelo fenómeno El Niño, resultando numa precipitação abaixo da média e distribuição irregular da mesma (Figura 3), bem como temperaturas acima da média, particularmente nas regiões centro e sul. A ausência de chuvas e um período de seca de 30 dias em Novembro impossibilitaram a sobrevivência de quaisquer culturas semeadas cedo. Embora as chuvas significativas ocorreram em Dezembro e Janeiro, as culturas tardiamente semeadas também sofreram com a seca e temperaturas acima da média em Fevereiro. As chuvas recomeçaram em Março, mas era demasiado tarde para qualquer recuperação e prevaleceu uma produção abaixo da média, especialmente nas zonas semiáridas do sul e centro do país. A produção acima da média no norte não será capaz de compensar o défice e a produção cerealífera nacional estará abaixo da média.

    Figura 3. Distribuição da preciitação no distrito de Changara (Tete) durante a estação chuvosa 2023/24
    Rainfall distribution in Changara district (Tete) during the 2023/24 rainy season

    Fonte: USGS/FEWS NET

    A seca induzida pelo El Niño de 2023/24 também afectou as regiões de produção excedentária nas províncias de Tete, Zambézia, Sofala e Manica, bem como as zonas a sul da província de Niassa (Figura 4). De acordo com uma avaliação realizada pela Organização Internacional para as Migrações (OIM) em colaboração com o Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres (INGD), 342 indivíduos (58 famílias) foram deslocados dos distritos a norte de Sofala e Tete, para comunidades de acolhimento em Manica (distrito de Bárue) entre 22 e 24 de Abril de 2024. As necessidades prioritárias para os deslocados incluem segurança alimentar, acesso a água potável, abrigo adequado e insumos agrícolas. Por outro lado, existe uma grande demanda de bens não alimentares, como kits de higiene, cobertores, redes mosquiteiras e utensílios de cozinha. A combinação da seca, degradação do solo e aumento da salinidade em importantes fontes de água continua a ter impacto na agricultura, pecuária e indústria pesqueira, tornando difícil para muitas famílias manter formas de vida sustentáveis nas zonas rurais.

    Figura 4. Índice de Satisfação das Necessidades Hídricad (WRSI) de 31 de Maio 2024
    Figure 4. Water Requirement Satisfaction Index (WRSI) as of May 31, 2024

    Fonte: USGS/FEWS NET

    Para além da seca induzida pelo El Niño, a época 2023/24 foi afectada pela tempestdade tropical Filipo em meados de Março de 2024. A tempestade trouxe ventos com velocidade máxima de 90 km por hora, rajadas superiores a 120 km por hora e fortes chuvas atingindo 150 mm em 24 horas. A tempestade atingiu principalmente as províncias de Sofala, Inhambane, Gaza e Maputo. Dez dias depois, a zona sul, particularmente Maputo, sofreu inundações devido a chuvas torrenciais. De acordo com as estimativas do Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres (INGD), de Abril de 2024, a combinação de choques, incluindo chuvas e ventos fortes e a tempestade tropical Filipo, afectou negativamente quase 200 mil pessoas, resultando na morte de 146 indivíduos. Por outro lado, 7.400 casas foram total ou parcialmente destruídas e 89 unidades de saúde, 468 escolas e 31 mil hectares de culturas diversas foram afectadas (das quais aproximadamente 20 por cento foram completamente destruídas). Os impactos estenderam-se também às infraestruturas, causando danos a mais de 900 km de estradas, bem como a destruição de pontes, aquedutos, postes de energia e outras infraestruturas essenciais.

    As cheias urbanas e periurbanas fizeram com que milhares de famílias procurassem refúgio em centros de acolhimento em diversos bairros das cidades de Maputo e Matola. Enquanto as águas baixavam no início de Junho, fortes chuvas e granizo agravaram as inundações e impediram o regresso das famílias. Segundo as autoridades, a solução definitiva para esta situação é a realocação destas famílias em zonas mais seguras. Algumas famílias cujas casas viram as águas das chuvas evacuadas já estão a regressar, enquanto outras aguardam o reassentamento. De acordo com as autoridades de gestão de desastres e municipais, a assistência humanitária nos centros de acolhimento, embora insuficiente, está a ser prestada aos necessitados através do INGD e parceiros. Além de alimentos, as principais necessidades incluem abrigo, bens não alimentares, purificação de água, equipamentos de higiene e saneamento ambiental. Entretanto, tem aumentado também a necessidade de reconstrução e reabilitação de infraestruturas.

    Necessidade urgente de sementes: Os desafios significativos à época 2023/24 incluíram a seca induzida pelo El Niño, cheias e ventos fortes. Como resultado, a produção agrícola ficou abaixo da média, levando a uma diminuição da renda familiar, especialmente para as famílias pobres e muito pobres que dependem da venda das suas colheitas para gerar renda. Muitas destas famílias não conseguem comprar as sementes necessárias para a época de cultivo de hortícolas em curso e necessitam de assistência urgente. As sementes necessárias incluem hortícolas, feijões, batata doce e cereais de ciclo curto. A actual época de hortícolas pode ajudar a reduzir, em certa medida, os défices de consumo até Setembro. No entanto, a segunda época não é praticada em todas as regiões afectadas pela seca induzida pelo El Niño, limitando-se às zonas baixas com humidade adequada ou às zonas com algum acesso a sistemas de irrigação.


    Análise das principais fontes de alimentos e renda

    Produção agrícola: Ao longo da época principal, de Outubro de 2023 a Abril de 2024, a produção de alimentos em grande parte das zonas sul e centro foi significativamente afectada pela seca induzida pelo El Niño. As zonas semiáridas no sul e centro, incluindo partes das províncias de Tete, Sofala, Manica, Gaza e Inhambane, tiveram uma produção agrícola abaixo da média. Além disso, as áreas que normalmente não são afectadas pelo El Niño, como a parte norte da província de Tete, partes da província da Zambézia e partes do centro das províncias de Sofala e Manica, também registaram uma produção abaixo da média.

    Contrariamente, a maioria das províncias do norte, incluindo Niassa, Cabo Delgado e Nampula, tiveram desempenhos agrícolas positivos, excepto a parte sul da província do Niassa, onde a precipitação esteve abaixo da média. Contudo, as zonas afectadas pelo ressurgimento do conflito em Janeiro e Fevereiro – incluindo os distritos de Macomia, Chiúre, Mecúfi, Metuge, Mocímboa da Praia, Quissanga, Ancuabe e Muidumbe – sofreram impactos agrícolas negativos devido a ataques esporádicos e ao receio de novos ataques, o que pode resultar numa produção agrícola abaixo da média.

    Devido aos choques climáticos e ao conflito, estima-se que a produção de milho da época 2023/24 esteja abaixo da média de cinco anos, podendo ser necessário aumentar as importações para o ano de consumo 2024/25. Além disso, as famílias pobres e muito pobres em muitas partes do país enfrentam uma disponibilidade abaixo da média de produtos sazonais, tais como a castanha de caju e melancia, devido à precipitação irregular.

    Produção pecuária: As chuvas significativas em Dezembro e Janeiro, seguidas de mais chuvas em Março, estão a gerar condições hídricas e de pasto favoráveis para o gado. As famílias pobres e muito pobres, que normalmente possuem galinhas, patos e, por vezes, cabritos e porcos, vendem-nos sempre que for necessário, para obter renda. O consumo de animais é raro, pois muitos são vendidos para a geração de renda. No entanto, muitas famílias muito pobres e pobres não possuem animais ou já os venderam devido a múltiplos choques recentes, particularmente nas zonas mais afectadas pela seca induzida pelo El Niño durante a principal época agrícola 2023/2024. Isto inclui a maior parte das zonas semiáridas do sul e centro, resultando em rendas da venda de gado abaixo da média.

    Trabalho agrícola e salários: Embora tenha havido múltiplas tentativas de sementeira e sacha, no geral, o trabalho agrícola esteve abaixo da média. Os respectivos salários também foram inferiores ao normal devido aos impactos persistentes de choques passados, como o impacto do ciclone Freddy nas zonas sul e centro, e a potencial colheita abaixo da média para as famílias médias e ricas. Em Cabo Delgado, os recentes ataques e o aumento da tensão têm estado a perturbar as actividades agrícolas, reduzindo, por conseguinte, as oportunidades de trabalho agrícola.

    Alimentos silvestres: Muitas das famílias pobres e muito pobres, especialmente as que perderam as suas fontes de renda, dependem de alimentos silvestres para alimentação. No entanto, devido ao aumento da procura, a disponibilidade de alimentos e frutas silvestres é limitada. Alguns alimentos silvestres bem conhecidos, consumidos por famílias com poucos recursos nas zonas sul e centro do país afectadas pela seca incluem mahimbe, tissundo, Macuacua, Massala, Mafilo, malambe, Massânica e NhicaNo distrito de Tambara, as autoridades reportaram em Fevereiro que algumas famílias recorreram a colecta de Nhica,, um tubérculo que cresce em águas estagnadas e temporárias; foi o único recurso disponível naquela altura para consumo.

    Fontes de rendimento não agrícolas: Com a produção abaixo da média ou praticamente perdida, a maioria das famílias pobres e muito pobres recorre à exploração e venda de recursos florestais para a geração de renda para a compra de alimentos nos mercados locais:

    • Venda de carvão e lenha: Muitas comunidades afectadas por eventos relacionados com o clima recorreram à produção e venda de carvão vegetal (Figura 5) para gerar renda e cobrir algumas necessidades básicas. No entanto, esta actividade só é lucrativa para as comunidades próximas das principais rotas de transporte e, à medida que a concorrência se intensifica, as famílias ganham menos. O Ministério da Terra e Ambiente destacou recentemente a importância de observância rigorosa das leis que regem o transporte de carvão vegetal sem licença em todo o país. Esta medida legal afectaria potencialmente a renda proveniente do carvão vegetal, uma vez que a maioria dos transportadores não possui as licenças necessárias.
    Figura 5. Venda d carvão em Tete
    Selling charcoal in Tete

    Fonte: FEWS NET

    • Minas artesanais: A mineração artesanal é praticada em Moçambique há muito tempo. Os principais minerais valiosos são ouro, pedras preciosas e semipreciosas; no entanto, nos últimos anos, a actividade expandiu-se e já inclui a extracção de pedra de construção, calcário, areia, argila, tantalite e carvão mineral. De acordo com um estudo realizado pelo Ministério dos Recursos Minerais e Energia, em coordenação com o Instituto Nacional de Estatística (INE) em 2021, foram identificados mais de 2.160 locais de mineração artesanal no país, dos quais 53 por cento são explorados por operadores independentes. Mais de 50 por cento estão envolvidos na mineração de ouro e cerca de 30 por cento na exploração de materiais de construção (pedra, areia e argila). Embora muitas das actividades mineiras sejam ilegais e altamente perigosas, elas são uma fonte de renda para milhares de famílias nas zonas rurais e servem como uma alternativa à agricultura, que é cada vez mais afectada por choques relacionados com o clima devido às alterações climáticas.
    • Pequenos negócios: Algumas famílias dedicam-se à produção de bebidas tradicionais utilizando cereais. No entanto, a baixa produção de cereais afectou a produção de bebidas e causou queda na renda. As famílias também praticam o artesanato e fabricam artigos tais como esteiras, pilões, ceifeiras, colheres de pau, peneiras, louças e outros utensílios domésticos. Porém, devido à baixa demanda e ao foco nos alimentos, a venda destes artigos também é acfetada.
    • Outras fontes de renda: O corte e venda de capim/palha, caniço e estacas para construção de casas está actualmente abaixo da média devido à baixa procura. Muitas famílias estão a dar prioridade à procura de alimentos, o que está a afectar o mercado destes materiais. Da mesma forma, a produção e venda de tijolos de barro também é afectada pelo reduzido poder de compra dos potenciais compradores, especialmente nas zonas urbanas e periurbanas onde os tijolos são geralmente procurados.

    Abastecimento do mercado:  A oferta de vários produtos da época agrícola 2023/24, incluindo milho, arroz, leguminosas, tubérculos e hortícolas, está abaixo da média. Os produtos alimentares estão a ser transportados das zonas com produção excedentária para as deficitárias por comerciantes formais e informais, que tiram partido da natureza essencial dos produtos alimentares. Em alguns mercados, além dos produtos de origem local, existem também quantidades significativas de produtos importados da África do Sul, tais como batata, cebolas, cenouras e outros produtos alimentares. 

    Poder de compra das famílias: Muitas famílias pobres e muito pobres nas zonas afectadas pelos choques da época 2023/24 estão a enfrentar dificuldades de compra de alimentos adequados devido a renda abaixo da média e aos preços de alimentos básicos acima da média. Nos mercados do sul e centro, os preços do milho permaneceram atipicamente estáveis após a colheita principal abaixo da média, mas os preços permanecem acima do ano passado e da média de cinco anos. Por exemplo, em Maputo, os preços do milho permaneceram estáveis desde o início do ano, mas actualmente são 24 por cento superiores aos do ano passado e 37 por cento superiores à média de cinco anos. As famílias nas zonas semiáridas do sul e centro afectadas pela seca, que tiveram colheitas fracas, possuem rendas limitadas, mas dependem do mercado no contexto destes preços acima da média, limitando o seu poder de compra. Nas regiões Norte, os preços diminuíram devido à colheita em curso. Especificamente, em Montepuez, província de Cabo Delgado (zona norte), o preço do milho tem diminuído sazonalmente desde Março. Apesar destas diminuições de preços, as famílias deslocadas pelo conflito em Cabo Delgado dependem fortemente do mercado e continuam a enfrentar dificuldades de acesso e compra de alimentos no mercado. Embora algumas zonas baixas tenham registado uma estabilização temporária dos níveis de consumo devido à produção de hortícolas, no geral, existe um défice no consumo de alimentos.


    Assistência alimentar humanitária

    Assistência alimentar humanitária – definida como assistência alimentar de emergência (em espécie, dinheiro ou senhas) – pode desempenhar um papel fundamental na mitigação da gravidade dos resultados de insegurança alimentar aguda. Os analistas da FEWS NET incorporam sempre a informação disponível sobre a assistência alimentar, com a ressalva de que a informação sobre a assistência alimentar é altamente variável geográfica e temporalmente. Em consonância com os protocolos do IPC, a FEWS NET utiliza a melhor informação disponível para avaliar onde a assistência alimentar é “significativa” (definida por pelo menos 25 por cento dos agregados familiares numa determinada área que recebem pelo menos 25 por cento das suas necessidades caloríficas através da assistência alimentar); vide o anexo do relatório. Além disso, a FEWS NET realiza análises mais profundas dos prováveis impactos da assistência alimentar na gravidade dos resultados, conforme detalhado na orientação da FEWS NET sobre a Integração da Assistência Alimentar Humanitária no Desenvolvimento de Cenários.  Outros tipos de assistência (por exemplo, fromas de vida ou assistência nutricional; programas de redes de segurança social) são incorporados noutros pontos da análise mais ampla da FEWS NET, conforme aplicável. 

    Em Maio, os parceiros do FSC prestaram assistência alimentar humanitária a cerca de 205.500 pessoas em Cabo Delgado e Niassa, no norte, cobrindo aproximadamente 40 por cento das suas necessidades alimentares mensais. Outras 7.970 pessoas receberam apoio agrícola e de formas de vida, incluindo insumos, equipamento de pesca e apoio em actividades de geração de renda. No entanto, até Junho, apenas 18 por cento dos recursos mínimos necessários para a resposta humanitária planificada tinham sido assegurados pelos parceiros do FSC. O agravamento da situação de segurança teve impacto nos esforços humanitários, particularmente em Macomia Sede: no dia 10 de Maio, um grupo de militantes fortemente armado entrou na aldeia e atacou as forças de segurança governamentais, assumindo o controlo da cidade, numa acção relativamente rápida e forçando os parceiros humanitários a suspender as actividades. Em Quissanga, a suspensão da assistência também está em curso. No entanto, os fundos limitados forçaram o PMA a reduzir a assistência alimentar em 2024 em vários distritos, incluindo Ancuabe, Balama, Ibo, Chiure, Montepuez, Palma, Metuge, Mueda, Namuno, Pemba e Mecúfi. Como resultado, aproximadamente 341 mil pessoas necessitadas não foram cobertas pelos programas de assistência alimentar durante a época de escassez, tendo este número aumentado para cerca de 470.300 no período pós-colheita. Para fazer face aos fundos limitados, o PMA está a implementar o princípio de priorização, concentrando-se nos mais vulneráveis, dando prioridade aos distritos com retornados, abordando os factores que levam as pessoas a abandonar as suas zonas, maximizando a relação custo-eficácia, integrando aspectos de sazonalidade e fazendo ajustes baseados em evidências. A FAO assumiu a liderança na assistência agrícola, fornecendo sementes (hortícolas) e instrumentos para a época de inverno, com outros parceiros cobrindo cerca de 75 por cento das famílias alvo previstos (cerca de 32.200 famílias) em Cabo Delgado.

    O quadro de Acções Antecipatórias (AA) em Moçambique, que visa mitigar os impactos da seca nas províncias de Gaza, Tete e Sofala, mobilizou 26 milhões de meticais (aproximadamente 408 mil dólares americanos) para diversas iniciativas que incluem a reabilitação de fontes de água, instalação de sistemas de irrigação fotovoltaicas e distribuição de sementes e material vegetativo tolerantes à seca. Foi fomentada a criação de pequenos animais, especialmente galinhas de dupla finalidade, e as comunidades receberam formação para melhorar a nutrição alimentar e técnicas de suplementação animal. Mensagens de aviso prévio personalizadas atingiram 270 mil pessoas, e transferências antecipadas em dinheiro de 2.500 Meticais por família por mês foram fornecidas a cerca de 11.600 famílias durante três meses, reflectindo o Programa de Assistência Social Directa Pós-Emergência (PASD-PE). Este apoio abrangente cobriu os distritos nas províncias de Gaza, Sofala e Tete.

    Existem preocupações sobre os recursos limitados nas zonas afectadas pela seca nas regiões sul e centro que enfrentam Crise (IPC Fase 3), uma vez que os poucos recursos humanitários estão principalmente concentrados no Norte devido à escalada do conflito e necessidades crescentes naquele parcela do país.


    Resultados actuais de insegurança alimentar aguda em Junho 2024

    Com base na análise das condições de segurança alimentar, a FEWS NET avalia até que ponto as famílias conseguem satisfazer as suas necessidades alimentares mínimas. Esta análise converge as evidências das condições de segurança alimentar com as evidências directas disponíveis do consumo alimentar a nível familiar e das mudanças nas formas de vida; A FEWS NET também considera as evidências disponíveis a nível da área sobre o estado nutricional e mortalidade, com foco na avaliação de se estas reflectem os impactos fisiológicos da insegurança alimentar aguda em vez de outros factores não relacionados com alimentos. Em última análise, a FEWS NET utiliza a escala de Classificação Integrada de Fases da Segurança Alimentar (IPC),  de cinco fases, mundialmente reconhecida, para classificar os actuais resultados de insegurança alimentar aguda. Além disso, a FEWS NET aplica o símbolo “!” para designar áreas onde a Fase do  IPC mapeado provavelmente estaria pelo menos numa Fase do IPC pior sem os efeitos da assistência alimentar humanitária em curso.

    Zonas Sul e Centro: Apesar da colheita em curso, muitas famílias pobres e muito pobres enfrentam um esgotamento atipicamente rápido das reservas de alimentos nos seus celeiros; normalmente, os celeiros deviam estar cheios nesta altura do ano. A insegurança alimentar aguda tem vindo a agravar-se este ano, muito antes da época normal de escassez, de Outubro a Março. Sem reservas de alimentos, as famílias pobres e muito pobres que não possuem animais para vender têm poucas opções de geração de renda para compra de alimentos nos mercados locais. Além disso, os elevados preços dos alimentos básicos como o milho (96 e 37 por cento acima da média) no centro e sul, respectivamente, com base nos mercados de Mutarara e Maputo) e arroz (37 e 19 por cento acima da média) no centro e sul, respectivamente com base nos mercados de Mutarara e Maputo) estão a reduzir o poder de compra e a limitar o acesso aos alimentos vendidos nos mercados locais. As famílias pobres e muito pobres nas zonas remotas e semiáridas já estão a adoptar algumas estratégias de sobrevivência indicativas de Crise normalmente observadas durante a época de escassez, tais como reduzir o número ou tamanho das refeições, dar prioridade às crianças em detrimento dos adultos, retirar as crianças da escola, procurar ajuda de familiares e aumentar o consumo de alimentos silvestres. No entanto, a disponibilidade dos alimentos silvestres está a diminuir devido à elevada procura. Mesmo com estas estratégias de sobrevivência, as famílias muito pobres e pobres não conseguem satisfazer as suas necessidades caloríficas e continuam a enfrentar défices no consumo alimentar, forçando algumas famílias a tomar medidas mais drásticas, incluindo a migração para outras zonas em busca de melhores condições de sobrevivência. A situação de Crise (IPC Fase 3) está presente nas zonas semiáridas do sul e centro, onde as famílias pobres e muito pobres com défices de consumo alimentar necessitam urgentemente de assistência alimentar de emergência. A prestação de assistência alimentar humanitária evitaria a deterioração do estado nutricional e evitaria piores resultados de insegurança alimentar, bem como impediria a adopção de estratégias de sobrevivência que afectam as formas de vida e comprometem as condições de vida no futuro.

    Em Cabo Delgado, a maioria dos deslocados internos e regressados continua a depender da assistência alimentar humanitária devido à tensão contínua causada por ataques esporádicos. Estes ataques estão a impedir que as pessoas retomem plenamente as suas atividades normais. Recentemente, houve um ressurgimento de ataques em zonas anteriormente pacíficas, tornando ainda mais difícil a retomada das formas de vida básicas durante a época chuvosa e agrícola de 2023/24. Como resultado, há novas vagas de deslocados internos e regressados, o que representa um desafio significativo para os esforços humanitários. As oportunidades de geração de renda e o poder de compra limitados intensificaram a concorrência pelos recursos limitados. Para a maioria das famílias deslocadas e regressadas, a principal fonte de alimentos é a assistência humanitária. O aumento da insegurança e o financiamento limitado da resposta estão a causar resultados persistentes de Crise (IPC Fase 3), enquanto a situação de “Estresse! (IPC Fase 2!) persistirá em zonas que recebem assistência alimentar humanitária regular. Em zonas relativamente mais seguras, a situação de “Estresse” (IPC Fase 2) prevalecerá, uma vez que a maioria das famílias pobres e muito pobres consegue ter acesso aos alimentos mínimos necessários, mas enfrentam dificuldades para cobrir as suas despesas não alimentares devido à necessidade de partilhar os seus recursos limitados com os seus familiares deslocados internos. No entanto, nas zonas não afectadas pelo conflito em Cabo Delgado, as condições agroclimáticas favoráveis durante a época 2023/24 levaram ao aumento da produção agrícola, resultando na melhoria da segurança alimentar para a maioria das famílias.

    Em Nampula, os distritos de Erati e Memba actualmente enfrentam Crise (IPC Fase 3). Isto deve-se à pressão sobre os recursos limitados causada pela presença de famílias deslocadas de dentro dos distritos e da província de Cabo Delgado, na sequência do incidente de Abril no distrito de Erati, perpetrado pelos insurgentes de Cabo Delgado.


    Principais pressupostos sobre condições atípicas de segurança alimentar de Junho de 2024 a Janeiro de 2025

    O próximo passo no processo de desenvolvimento de cenários da FEWS NET é desenvolver pressupostos baseadas em evidências sobre factores que afectam as condições de segurança alimentar. Isto inclui riscos e anomalias nas condições de segurança alimentar que afectarão a evolução de alimentos renda das famílias durante o período da projecção, bem como factores que podem afectar o estado nutricional. A FEWS NET também desenvolve pressupostos sobre factores que se espera que se comportem normalmente. Em conjunto, estes pressupostos sustentam o cenário “mais provável”. A sequência de pressupostos é importante; os pressupostos primários (ex:, expectativas relativas ao clima) devem ser desenvolvidos antes dos pressupostos secundários (ex:, expectativas relativas à produção agrícola ou pecuária). Os principais pressupostos que sustentam esta análise e as principais fontes de evidência utilizadas para desenvolver os pressupostos estão listados abaixo.

    Pressupostos nacionais

    • Com base nas previsões meteorológicas internacionais, o início da estação chuvosa de 2024/25, de Outubro a Dezembro de 2024, deverá ser médio; no entanto, existe uma incerteza devido ao longo tempo de espera. Os modelos NMME e WMO indicam uma maior probabilidade de La Niña na segunda metade de 2024, levando a precipitações potencialmente acima da média.
    • Os níveis das barragens e o abastecimento nacional de água poderão estar próximos da média em grande parte das zonas sul e norte, sustentadas pelas recargas da estação chuvosa de 2023/24, mas abaixo da média em partes da zona centro devido a chuvas significativamente abaixo da média na região. A maior probabilidade de ocorrência de La Niña no segundo semestre de 2024 poderá aumentar a probabilidade de ciclones, ventos fortes e cheias afectarem Moçambique, particularmente de Dezembro de 2024 a Janeiro de 2025.
    • Em 2024, a produção de milho poderá estar inferior à média de cinco anos e inferior à do ano passado, principalmente devido aos efeitos da seca induzida pelo El Niño. Contrariamente aos eventos de seca anteriores, a seca durante a época 2023/24 afectou significativamente as zonas produtivas na região centro do país, incluindo as províncias de Manica, Sofala, Tete e Zambézia.
    • O comércio transfronteiriço informal de milho entre o Malawi e Moçambique poderá diminuir devido à produção abaixo da média deste cereal em ambos os lados da fronteira. Espera-se que haja uma maior procura por parte do Zimbabwe, uma vez que os compradores daquele país procuram produtos alimentares processados, como arroz, farinha de milho e produtos não alimentares. Com a disponibilidade de milho abaixo da média em Moçambique, poderá haver um aumento da procura do milho sul-africano e de produtos alimentares processados. Contudo, a produção abaixo da média na África do Sul poderá levar a um aumento das importações do milho nos mercados globais.
    • Entre Junho e Setembro de 2024, a maioria das famílias estará envolvida em trabalhos não agrícolas para geração de renda. Aquelas que tiverem condições adequadas para a segunda época agrícola concentrar-se-ão no cultivo de hortícolas e cereais de ciclo curto. De Outubro de 2024 a Janeiro de 2025, o início normal esperado da estação chuvosa de 2024/25 proporcionará trabalho agrícola próxima da média, incluindo a preparação da terra, sementeira e sacha. No entanto, os salários poderão estar abaixo da média devido à fraca capacidade financeira das famílias médias e ricas, uma vez que ainda não se recuperaram dos impactos dos choques de 2024 e dos últimos anos. 
    • Nas zonas afectadas por choques climáticos, um número crescente de famílias poderá depender mais de actividades comerciais de pequena escala e da prestação de serviços para gerar renda, o que poderá levar a um aumento da concorrência e renda abaixo da média. 
    • Com a excepção da região norte, onde os salários do trabalho rural/agrícola poderão estar próximos da média, a maioria das famílias médias e ricas das regiões centro e sul poderão registar um poder de contratação abaixo da média este ano devido aos choques climáticos, atribuídos principalmente aos efeitos do El Niño, bem como os choques passados. Isto poderá resultar numa procura de trabalho agrícola e salários abaixo da média. No entanto, durante o período da época principal de 2024/25, de Outubro de 2024 a Janeiro de 2025, as oportunidades de trabalho agrícola poderão estar próximas da média.
    • A segunda época agrícola representa menos de 20 por cento do total da produção anual. No entanto, devido à humidade residual abaixo da média e aos desafios no acesso às sementes para as famílias afectadas pelos choques climáticos, a produção da segunda época deste ano deverá estar abaixo da média e, consequentemente, a renda proveniente da venda de hortícolas também poderá ser inferior à média. 
    Figura 6. Preços e projecções do grão de milho em Maputo (MZN/kg
    Maputo maize grain prices and projections (MZN/kg)

    Fonte: FEWS NET estimates based on MADER/SIMA data

    • De Outubro de 2024 a Janeiro de 2025, os danos causados por pragas poderão ser médios. Entre as pragas previstas, o destaque vai para os roedores, lagarta do funil de milho (LFM), gafanhotos, brocas de milho e larvas. 
    • De acordo com as projecções de preços da FEWS NET, os preços do milho no mercado de referência de Maputo (Figura 6) seguirão as tendências sazonais, mas permanecerão acima da média de cinco anos durante todo o período do cenário. Os preços elevados do milho reduzirão o poder de compra das famílias muito pobres e pobres, limitando o seu acesso aos alimentos. Como tem sido típico, os preços da farinha de milho e do arroz poderão permanecer mais estáveis, em parte devido a uma taxa de câmbio estável do Metical, mas ocorrerão variações de curto prazo impulsionadas pela dinâmica localizada da oferta e da procura.
    • A esperada disponibilidade média de alimentos silvestres nas regiões sul e norte do país proporcionará um alívio parcial durante a época de escassez, mas será insuficiente para cobrir os défices nutricionais. Na região centro, a disponibilidade de alimentos silvestres poderá estar abaixo da média devido à seca causada pelo El Niño.

    Pressupostos subnacionais para as zonas afectadas pela seca induzida pelo El Niño (zonas semiáridas do sul e centro)

    • As perspectivas da segunda época são fracas, uma vez que a humidade residual necessária estará abaixo da média até ao final da época, em Setembro/Outubro. Consequentemente, prevê-se que o nível de produção seja inferior a 70 por cento da média. 
    • Ao longo de todo o período do cenário, as famílias muito pobres e pobres terão reservas de alimentos baixas ou não terão nenhumas reservas uma vez que se esgotaram rapidamente na sequência de uma produção abaixo da média ou nenhuma produção em 2024. Os alimentos da próxima colheita só estarão disponíveis a partir de Março/Abril de 2025.
    • Devido a múltiplas tentativas de sementeira na época 2023/24, as famílias de baixa renda consumiram a maior parte das suas sementes e insumos agrícolas. Actualmente as famílias enfrentam dificuldades na obtenção de sementes para a segunda época em curso e para a próxima época principal 2024/25. Sem distribuições planificadas de sementes, as famílias muito pobres e pobres terão dificuldade de acesso às sementes, levando a uma diminuição das áreas de produção. Além disso, as sementes guardadas (se houver) normalmente são de má qualidade e menos resistentes a pragas e doenças.
    • Na sequência de uma colheita fraca ou fracassada em Março/Abril, as famílias pobres e muito pobres nestas zonas têm sido cada vez mais dependentes do auto emprego para a obtenção de renda para a compra de alimentos. Esta tendência poderá continuar durante todo o período do cenário. No entanto, devido à elevada concorrência, os lucros esperados serão mínimos. Cada vez mais membros das famílias estão a envolver-se em actividades como a produção e venda de carvão, o que conduz a um aumento da concorrência. Outros recorrem a diversas actividades, como a produção de bebidas, a venda de produtos florestais e até mesmo à caça ilegal. Nos últimos anos, muitos jovens têm-se deslocado para as minas da região para participarem na mineração artesanal.
    • Nos próximos meses, a condição física dos animais na região centro poderá baixar à medida que o pasto se deteriora antes do início da estação chuvosa no final de 2024. No geral, os preços dos animais poderão ser inferiores à média devido a prevista diminuição da sua condição física na região centro e um aumento do número de proprietários a venderem os seus animais para geração de renda. Contudo, as condições de pasto poderão ser favoráveis em grande parte da zona sul durante este período. A maioria das famílias muito pobres e pobres possui galinhas, algumas famílias também possuem cabritos (normalmente dois a cinco) e porcos.
    • Ao longo do período do cenário, os fluxos comerciais tanto informais como formais de milho provenientes das zonas de produção poderão aumentar mais do que o normal, impulsionados pelos elevados preços do milho e pela necessidade de compensar a escassez na oferta do mercado local. No entanto, a disponibilidade global do milho permanecerá abaixo da média até Janeiro de 2025, altura em que se espera a colheita.
    • Com base na projecção integrada de preços da FEWS NET (Figura 7), os preços do milho poderão permanecer superiores à média de cinco anos e aos níveis do ano passado durante todo o período do cenário devido a uma provável redução na oferta. Embora se espere algum milho adicional proveniente de certas zonas de produção, isso não reduzirá os preços para o nível médio. Os choques recorrentes ao longo dos últimos cinco anos mantiveram consistentemente os preços elevados, reduzindo o poder de compra e afectando o acesso aos alimentos. Actualmente, os preços rondam nos 24 Meticais/Kg, em comparação com a média de cinco anos de 14 Meticais-Kg e 17 Meticais/Kg do ano passado.
    Figura 7. Preços de milho e projecções em Mutarara MZN/kg)
    Mutarara maize grain prices and projections (MZN/kg)

    Fonte: FEWS NET estimates based on MADER/SIMA data

    • Embora se preveja que os níveis de desnutrição aguda piorem devido à diminuição do consumo de alimentos nutritivos por muitas famílias de baixa renda nestas zonas, prevê-se que permaneçam entre Aceitável (Fase 1) com (GAM < 5 por cento) e Alerta (Fase 2) com (GAM entre 5-9,9 por cento) de Junho a Setembro de 2024. No entanto, entre Outubro de 2024 e Janeiro de 2025, a baixa oferta de alimentos e o consumo excessivo de alimentos silvestres (baixo nível calórico) poderão agravar ainda mais o nível da desnutrição aguda em comparação com o período anterior.

    Pressupostos sub-nacionais para as zoas afectadas pelo conflito /Cabo Delgado

    • Devido à esperada retirada das forças regionais da SADC, prevê-se que a frequência e intensidade da violência por parte de grupos armados não estatais aumente nos próximos meses em Cabo Delgado em comparação com os níveis observados em 2023, mas não poderá atingir o mesmos níveis de violência observados em 2021 e 2022. 
    • É provável que o conflito permaneça concentrado em Cabo Delgado, com potenciais ataques esporádicos na província vizinha de Nampula, particularmente em Eráti e Memba, levando a mais deslocamentos de pessoas.
    • As forças conjuntas de Moçambique e do Rwanda, apoiadas pelas forças locais, poderão continuar os esforços anti-insurreição. 
    • A presença de deslocados internos e de repatriados poderá criar desafios a curto e médio prazos relacionados com a disponibilidade de abrigo, acesso ao trabalho e recursos agrícolas, especialmente em distritos que registam um fluxo repentino de deslocados internos, tais como Palma e Mocímboa da Praia.

    Assistência alimentar humanitária

    Pressuposto nacional 

    • Até Junho, apenas 18 por cento dos recursos mínimos necessários para a resposta humanitária planificada tinham sido assegurados pelos parceiros do FSC. Existem preocupações em torno dos recursos limitados nas zonas afectadas pela seca e Crise (IPC Fase 3) nas regiões sul e centro, especialmente porque estes recursos limitados estão principalmente concentrados no norte do país devido à escalada do conflito e crescentes necessidades humanitárias.

    Pressuposto subnacional para zonas de conflito em Cabo Delgado

    • A insuficiência de fundos forçou o PMA a reduzir a assistência alimentar em 2024 em vários distritos, incluindo Ancuabe, Balama, Ibo, Chiure, Montepuez, Palma, Metuge, Mueda, Namuno, Pemba e Mecúfi.

    Tabela 1. 

    Principais fontes de evidências que os analistas da FEWS NET incorporaram no desenvolvimento dos pressupostos acima 

    Principais fontes de evidências:
    Previsões meteorológicas e de cheias produzidas pelo Centro de Previsão Climática da NOAA, USGS, Centro de Riscos Climáticos da Universidade da Califórnia em Santa Bárbara e NASA

    Análise e previsões de conflitos produzidas pela ACLED, Control Risks Seerist, Signal Room, ACAPS

     

    Avaliação rápida de campo da FEWS NET realizada nas zonas semiáridas do sul (Maio de 2024) e centro (Janeiro de 2024)

     

    Planos de distribução de assistência alimentar dos parceiros do FSCActualização da Oferta Regional e Perspectiva de Mercados – Abril 2024Dados geo-espatiais, produtos satélite, e produtos derivados de dados
    Índice de Preços ao Consumidor (IPC) Comunicado de Junho de 2024 do Instituto Nacional de Estatística (INE)

    Entrevistas de informantes chave com extensionistas locais, parceiros de implementação humanitária e líderes comunitários

     

    Organização Internacional para as Migrações (IOM), 22 de Maio 2024. DTM Moçambique — ETT Relatório de Alerta sobre Movimentost —114 (Macomia e Quissanga). IOM, Moçambique.

    Resultados projectados de insegurança alimentar aguda entre Junho de 2024 e Janeiro de 2025

    Utilizando os principais pressupostos que sustentam o cenário “mais provável”, a FEWS NET pode projectar resultados de insegurança alimentar aguda, avaliando a evolução da capacidade das famílias de satisfazer as suas necessidades caloríficas mínimas ao longo do período da projecção. Tal como a análise dos actuais resultados de insegurança alimentar aguda, a FEWS NET converge as expectativas da trajectória provável do consumo alimentar a nível familiar e da mudança das formas de vida com o estado nutricional e mortalidade ao nível da área. A FEWS NET depois classifica os resultados da insegurança alimentar aguda utilizando a escala IPC. Por último, a FEWS NET aplica o símbolo “!” para designar quaisquer zonas onde a Fase do IPC mapeada estaria pelo menos numa Fase IPC pior sem os efeitos da assistência alimentar planificada – provavelmente a ser financiada e executada.

    Zonas Sul e Centro: De Junho a Setembro de 2024, muitas das famílias pobres e muito pobres sem reservas de alimentos continuarão a enfrentar dificuldades no acesso a uma disponibilidade adequada de alimentos, e esta situação poderá deteriorar-se ao longo do período de análise. As poucas famílias com algumas reservas esgotarão rapidamente as suas reservas de alimentos e, praticamente, as famílias muito pobres não terão reservas alimentares no início deste período. As famílias dependerão principalmente do autoemprego para a geração de renda para a compra de alimentos; no entanto, a renda será limitada devido à concorrência pelo trabalho limitado, falta de acesso ao mercado e baixa procura por parte de potenciais compradores, sendo, portanto, pouco provável que consigam cobrir os défices no consumo de alimentos. O poder de compra das famílias poderá estar muito abaixo da média devido a baixa renda combinada com preços dos alimentos básicos atipicamente elevados depois da época da colheita. Um número crescente de famílias pobres e muito pobres poderá recorrer a estratégias de sobrevivência indicativas de Crise, incluindo priorizar a compra de alimentos em detrimento dos cuidados de saúde, educação e outros bens não alimentares; enviar familiares para comer algures; consumir reservas de sementes; saltar ou reduzir refeições; priorizar o consumo de alimentos pelas crianças; e comer alimentos menos preferidos. Os jovens migrarão para os principais centros urbanos e para a África do Sul em busca de oportunidades limitadas de trabalho ocasional. Ao longo do tempo, prevê-se que cresça o universo de famílias com deficiência alimentar, especialmente nas zonas semiáridas remotas. Para muitas destas famílias, a única forma de mitigar o défice no consumo de alimentos será através da assistência humanitária. Na ausência de assistência, as famílias pobres e muito pobres serão obrigadas a depender mais de alimentos silvestres, que normalmente são consumidos como último recurso. No entanto, devido ao aumento da sua procura e disponibilidade limitada, estes alimentos silvestres não compensarão os défices de consumo alimentar. Como resultado, estas zonas poderão enfrentar Crise (IPC Fase 3).

    Outubro de 2024 a Janeiro de 2025 marca o início da época chuvosa e agrícola. As previsões iniciais sugerem um início normal; no entanto, os impactos da seca induzida pelo El Niño durante a época 2023/24 prolongar-se-ão para além do período do cenário. Como resultado, as famílias pobres e muito pobres continuarão a enfrentar escassez de alimentos, enquanto retomam lentamente o trabalho agrícola durante a época 2024/25. Apesar do aumento das oportunidades de trabalho agrícola, a maioria das famílias pobres e muito pobres poderão não receber pontualmente os seus salários ou em espécie, uma vez que as famílias ricas também foram afectadas pela seca e têm capacidade limitada de pagar os seus trabalhadores. A disponibilidade de alimentos nos mercados locais diminuirá, mas a procura por parte das famílias aumentará até Janeiro de 2025 e posteriormente. O acesso aos alimentos provenientes dos mercados irá piorar, uma vez que os preços dos alimentos básicos aumentarão rapidamente durante o pico da época de escassez, em Dezembro e Janeiro. Com a ocorrência das chuvas, a disponibilidade de alimentos silvestres poderá aumentar. Combinada com qualquer assistência humanitária, isso ajudará as famílias mais vulneráveis a mitigar alguns défices no consumo de alimentos; contudo, sem assistência humanitária, os níveis de desnutrição aguda poderão aumentar. As famílias pobres e muito pobres continuarão a enfrentar dificuldades de encontrar alimentos suficientes para sua alimentação. Devido aos preços elevados dos alimentos e rendimentos mais baixos das culturas, mais famílias enfrentarão Crise (IPC Fase 3) e necessitarão de assistência alimentar de emergência.

    Cabo Delgado (zonas afectadas pelo conflito): Durante todo o período do cenário, a Crise (IPC Fase 3) persistirá na maioria das zonas afectadas pelo conflito. As circunstâncias imprevisíveis no terreno, marcadas por ataques esporádicos por parte dos grupos armados não estatais, perpetuarão uma atmosfera de tensão e medo, afectando as actividades básicas de subsistência, tais como as oportunidades agrícolas de geração de renda. O movimento contínuo de deslocados internos e regressados continuará a constituir um desafio significativo à capacidade de resposta humanitária, uma vez que os afectados continuarão a enfrentar escassez de alimentos devido ao ambiente volátil em curso. A maioria dos deslocados e repatriados necessitará de ajuda humanitária urgente em termos de abrigo e alimentos.

    A presença de agências humanitárias em certos distritos, tais como Macomia Sede e Quissanga, é dificultada pela insegurança. A presença de agências humanitárias dependerá das avaliações de segurança realizadas para garantir a segurança dos trabalhadores humanitários. Por outro lado, os recursos necessários para as acções de resposta são insuficientes e isso é agravado pela crescente procura de assistência humanitária nas zonas afectadas pela seca induzida pelo El Niño no sul e no centro do país. Os fundos limitados forçaram o PMA a reduzir a assistência alimentar em 2024 em vários distritos, incluindo Ancuabe, Balama, Ibo, Chiure, Montepuez, Palma, Metuge, Mueda, Namuno, Pemba e Mecúfi; como resultado, alguns destes distritos poderão permanecer em Crise (IPC Fase 3). Nos distritos que esperam assistência alimentar regular, a situação poderá continuar a ser de “Estresse”! (IPC Fase 2!). Alguns distritos fronteiriços na província vizinha de Nampula, incluindo partes dos distritos de Eráti e Memba, poderão continuar a enfrentar Crise (IPC Fase 3) devido à pressão causada pelo fluxo de deslocados internos que fogem do conflito em Cabo Delgado.

    Zonas costeiras (incluindo zonas propensas a ciclones): Entre Novembro de 2024 e Janeiro de 2025 existe a possibilidade de ocorrência de tempestades ou ciclones em certas zonas ao longo da costa moçambicana. Esses eventos climáticos poderão trazer ventos fortes a muito fortes, chuvas fortes e cheias. Como resultado, as infraestruturas e os campos agrícolas com culturas em vários estágios de crescimento poderão ser destruídos: os ventos fortes poderão danificar as culturas, especialmente em zonas altas, enquanto as culturas em zonas baixas poderão ser inundadas. As casas de construção precária também poderão ser danificadas, deixando famílias sem abrigo e necessitando de abrigo em centros de acolhimento durante pelo menos três meses. Dependendo da extensão dos danos e do acesso a sementes de culturas de ciclo curto, as famílias mais afectadas poderão semear novamente após as cheias, levando a uma potencial recuperação da produção agrícola própria, mas essa produção não seria conseguida até depois do período da projecção. Portanto, durante o período de projecção, as famílias deslocadas poderão enfrentar Crise (IPC Fase 3) e necessitarão de assistência alimentar humanitária de emergência até que haja a possibilidade de recuperação após o período de três meses. 


    Eventos que podem alterar os resultados projectados de insegurança alimentar aguda

    Embora as projecções da FEWS NET sejam consideradas o cenário “mais provável”, existe sempre um certo grau de incerteza nos pressupostos que sustentam o cenário. Isto significa que as condições de segurança alimentar e os seus impactos na insegurança alimentar aguda podem evoluir de forma diferente do previsto. A FEWS NET publica actualizações mensais às suas projecções, mas os tomadores de decisão precisam de informações antecipadas sobre esta incerteza e de uma explicação do porquê as coisas podem resultar de forma diferente do projectado. Assim sendo, o passo final no processo de desenvolvimento de cenários da FEWS NET é identificar brevemente os principais eventos que resultariam num cenário alternativo credível e que alterariam significativamente os resultados projectados. A FEWS NET considera apenas cenários que tenham uma probabilidade razoável de ocorrência.

    Nacional 

    Evento: Início tardio e errático da precipitação

    Impacto provável nos resultados de insegurança alimentar aguda: O início tardio e errático da época agrícola 2024/25 poderá causar um atraso na disponibilidade do trabalho agrícola. Apesar dos salários abaixo da média, tanto em dinheiro como em espécie, uma redução significativa da renda agravaria os níveis de consumo de alimentos das famílias pobres e muito pobres que já dependem do mercado e que enfrentam dificuldades para satisfazer as suas necessidades alimentares.

    Zonas semiáridas do sul e centro

    Evento: Os comerciantes não respondem conforme previsto e nenhuns produtos adicionais fluem para as zonas de produção deficitária

    Impacto provável nos resultados da insegurança alimentar aguda: Os mercados locais estarão mais subabastecidos do que o esperado, provocando um aumento dos preços dos alimentos para níves acima dos esperados. Os défices no consumo de alimentos, especialmente entre as famílias pobres e muito pobres, aumentariam.

    Evento: Resposta inadequada às necessidades de assistência humanitária

    Impacto provável nos resultados de insegurança alimentar aguda: A assistência humanitária insuficiente resultaria em mais famílias pobres e muito pobres com maiores défices no consumo de alimentos e um potencial aumento da desnutrição aguda.


    Anexo: Resultados de segurança alimentar mais prováveis e zonas que recebem níveis significativos de assistência humanitária

    Citação recomendada: FEWS NET. Moçambique Previsão de Segurança Alimentar Junho 2024 - Janeiro 2025: Crise (IPC Fase 3) persiste devido aos impactos do El Niño e conflito, 2024.

    Para projectar as condições de segurança alimentar ao longo de um período de seis meses, a FEWS NET desenvolve um conjunto de pressupostos sobre eventos prováveis, seus efeitos e as respostas prováveis de diversos actores. A FEWS NET analisa esses pressupostos, no contexto das condições actuais e formas de vida locais para desenvolver cenários estimando as condições de segurança alimentar. Normalmente, a FEWS NET reporta o cenário mais provável. Para saber mais, clique aqui.

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