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- Prevalece a insegurança alimentar aguda de Crise (IPC Fase 3) nas zonas afectadas pelo conflito em Cabo Delgado. Estas zonas têm registado um recrudescimento dos ataques por grupos armados não estatais (GANEs) desde o início do ano. De acordo com o Gabinente das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA), a situação de segurança em Cabo Delgado permaneceu muito volátil em Julho. Ataques contra civis e confrontos entre os GANEs e as forças de defesa e segurança de Moçambique levaram ao deslocamento de mais de 56.200 pessoas. De Outubro de 2025 a Janeiro de 2026, a situação de Crise (IPC Fase 3) persistirá e poderá se expandir para novas áreas devido à evolução das táticas da insurgência, que passam do controle territorial para operações altamente móveis e dispersas, com o objectivo de sobrecarregar tanto as forças de defesa e segurança como a pupulação civil.
- Na sequência de dois anos consecutivos de baixa produção, muitas famílias pobres no sul e centro de Moçambique enfrentam Crise (IPC Fase 3). As famílias pobres nestas zonas têm recorrido a estratégias de sobrevivência indicativas de Crise, uma vez que não conseguiram se recuperar na época 2024/25 dos efeitos da seca induzida pelo El Niño de 2023-2024. Nestas zonas, projecta-se que alguns distritos passem de Estresse (IPC Fase 2) para Crise (IPC Fase 3), à medida que as reservas de alimentos se esgotam e o poder de compra se reduz para níveis abaixo da média. Por outro lado, as famílias que enfrentam dois anos consecutivos de baixa produção agrícola poderão ter uma capacidade de sobrevivência reduzida.
- Até Julho, o Grupo de Segurança Alimentar de Moçambique relatou que a assistência alimentar cobriu cerca de 78.500 pessoas (aproximadamente 50 por cento afectadas pelo conflito e 50 por cento por ciclones em Cabo Delgado e Nampula). Nas zonas afectadas pelo conflito, a assistência alimentar cobriu cerca de 40 por cento das necessidades calóricas mensais dos beneficiários. O pacote de Distribuição Geral de Alimentos no âmbito dos ciclones Chido e Jude cobre quase 80 por cento das necessidades calóricas diárias de um mês. Foi prestada assistência agrícola a 46.265 pessoas afectadas pelo conflito, ciclones e secas. Por outro lado, 1.015 pessoas receberam assistência através de actividades de geração de renda. O PMA Moçambique, responsável por 98 por cento da assistência alimentar humanitária em Cabo Delgado, enfrenta uma escassez de recursos para as operações em curso, com a previsão de a assistência via transferências monetárias se esgotar até Novembro de 2025.
- Em Julho, os preços do milho se mantiveram estáveis em todo o país, como é típico do período pós-colheita. No entanto, os preços nas zonas sul estiveram mais de 50 por cento acima da média de cinco anos e mais de 20 por cento acima do ano passado, afectando o poder de compra de muitas famílias pobres. Em contrapartida, os preços nas regiões centro e norte estiveram na ordem de 20 por cento a 50 por cento abaixo da média de cinco anos, devido à melhoria das condições agroclimáticas. Os preços do arroz e da farinha de milho permaneceram estáveis de Junho a Julho, mas 20 por cento a 70 por cento acima da média de cinco anos, com os maiores aumentos na zona sul.
Áreas afectadas pelo conflito em Cabo Delgado. De acordo com o OCHA, a situação de segurança em Cabo Delgado permaneceu altamente volátil em Julho. Ataques a civis por GANEs e confrontos armados entre estes grupos e as forças de defesa e segurança moçambicanas levaram ao deslocamento de mais de 56.200 pessoas. Em resposta, uma vez que o número de incidentes registados seguiu uma tendência crescente em Julho, dois novos centros de acolhimento de deslocados internos foram abertos em Macomia Sede, além dos seis centros existentes.
Uma mudança geográfica notável na violência também foi observada, expandindo-se para o sul, para Ancuabe, Chiúre e Erati (Nampula). Esta expansão restringiu ainda mais o acesso rodoviário a Macomia. O OCHA estima que mais de 208,100 civís foram afectados — tanto directa como indirectamente — pela violência. Em Julho, foram reportados 47 ataques contra civis, incluindo assassinatos, sequestros, extorsões e saques, resultando em pelo menos 29 mortes e 69 sequestros.
Segunda época agrícola. A segunda época agrícola está em curso, após as colheitas da primeira e principal época. A segunda época concentra-se no cultivo de hortícolas, incluindo repolho, alface, tomate, pimentão, pepino, quiabo, cebola e outras hortícolas. A segunda época é normalmente praticada em zonas com acesso à irrigação e destina-se principalmente ao consumo e à venda imediatos.
A colheita e venda destas hortícolas estão em curso, o que contribui para o aumento do consumo e da renda das famílias envolvidas, especialmente aquelas em zonas baixas com potencial para segunda época e proximidade aos mercados urbanos. Em algumas regiões, o milho é igualmente produzido na segunda época, principalmente para o consumo verde (maçaroca), e não seco, devido ao baixo teor de humidade residual.
No entanto, muitas zonas não conseguem produzir hortícolas na segunda época devido a condições agroclimáticas desfavoráveis, incluindo a falta de humidade residual e fontes limitadas de água para rega.
Situação macroeconómica. Moçambique registou uma contração de quase 4 por cento do PIB no primeiro trimestre de 2025. De acordo com o governo, esta redução resulta parcialmente das manifestações violentas pós-eleitorais, do aumento dos ataques por GANEs em alguns distritos de Cabo Delgado e da ocorrência dos ciclones Dikeledi e Jude.
Até Junho, Moçambique registou uma tendência decrescente em termos de receita e despesas. A redução nos gastos, especialmente seu impacto em despesas como as relacionadas com a contratação de novos trabalhadores, pode agravar ainda mais os níveis já elevados de desemprego (particularmente nas zonas urbanas, que aumentaram significativamente na sequência das manifestações pós-eleitorais).
Em Julho, o Instituto Nacional de Estatística (INE) reportou uma taxa de inflação anual de quase 4 por cento, a mais baixa registada desde Dezembro de 2024; no entanto, a inflação dos alimentos situa-se perto dos 9 por cento. As componentes que afectam a maioria da população, como habitação, água, electricidade e outros combustíveis, aumentaram ligeiramente, em cerca de 0,7 por cento, enquanto os preços dos serviços de transporte permaneceram estáveis. A cidade de Tete registou o maior aumento de preços, cerca de 7 por cento, enquanto Quelimane registou o menor, cerca de 2,1 por cento.
De acordo com o INE, a inflação mensal manteve-se estável entre Junho e Julho. Os alimentos registaram uma deflação de 0,8 por cento, enquanto os preços dos serviços de transporte permaneceram inalterados. Na categoria de produtos alimentares, foram observadas reduções notáveis nos preços da couve, alface, tomate e cebola, atribuídas às colheitas da segunda época em curso. Os preços do gasóleo e da gasolina também caíram em cerca de 4,8 por cento e 1,5 por cento, respetivamente. No entanto, certos produtos, como carvão vegetal e carne de vaca, registaram aumentos de preço de cerca de 4,6 por cento e 3,7 por cento, respectivamente, e foram registados pequenos aumentos nos preços do peixe seco, peixe fresco e pão.
As taxas de inflação nacionais podem ofuscar os impactos mais severos dos altos preços dos alimentos em zonas remotas e semiáridas de difícil acesso. Nestas regiões, muitas famílias pobres que sofreram mais de dois anos consecutivos de baixa produção agrícola enfrentam dificuldades de acesso aos alimentos nos mercados locais devido aos altos preços dos alimentos essenciais.
Preços do milho, farinha de milho e arroz. Em Julho, os preços do milho seguiram a tendência sazonal na maior parte do país, típica do período pós-colheita (Figura 1). No entanto, na região sul, os preços do milho permanecem mais de 50 por cento acima da média de cinco anos e mais de 20 por cento acima do ano passado. Esta situação está tendo um impacto negativo no poder de compra de muitas famílias pobres, com poucas ou nenhumas reservas de alimentos e estas enfrentam dificuldades de sobrevivência.
Contrariamente, os preços do milho nas regiões centro e norte estiveram na ordem de 20 por cento a 50 por cento abaixo da média de cinco anos em Julho, sustentados por uma colheita de 2025 no geral favorável. Em comparação com o ano passado, os preços do milho nestas regiões diminuíram aproximadamente em 47 por cento.
Os preços do arroz também permaneceram estáveis de Junho a Julho, mas estão actualmente na ordem de 40 por cento a 70 por cento acima da média de cinco anos. A zona sul registou os maiores aumentos, enquanto a zona centro apresentou níveis de aumento mais baixos. Em comparação com o ano anterior, os preços do arroz estiveram na ordem de 20 por cento a 55 por cento acima da média, com os aumentos mais significativos novamente no sul.
Os preços da farinha de milho permaneceram estáveis de junho a julho e actualmente estão na ordem de 20 por cento a 35 por cento acima da média de cinco anos, com o maior aumento na zona centro e o menor no sul. Em comparação com o ano anterior, os preços da farinha de milho permaneceram relativamente inalterados nas zonas sul e norte, mas foram cerca de 20 por cento mais altos na zona centro.
Assistência alimentar humanitária. Até Julho, o Grupo de Segurança Alimentar de Moçambique reportou que a assistência alimentar havia coberto cerca de 78.500 pessoas (aproximadamente 50 por cento afectadas pelo conflito e 50 por cento pelos ciclones em Cabo Delgado e Nampula). Por outro lado, foi prestada assistência a mais de 12.200 pessoas em Niassa, em forma de Proteção Social, e a 55 indivíduos em Sofala, através de acções de resposta antecipada à seca.
Nas zonas afectadas pelo conflito, a assistência alimentar cobriu cerca de 40 por cento das necessidades calóricas mensais dos beneficiários. O pacote de distribuição geral de alimentos, projectado para responder aos impactos dos ciclones Chido e Jude, basicamente presta assistência aos beneficiários durante um mês, cobrindo quase 80 por cento das suas necessidades calóricas diárias.
Segundo o OCHA, até 31 de Julho, a instalação de postos de controle ao longo das principais rotas limitou significativamente o acesso humanitário, atrasando a assistência a mais de 85 mil pessoas em Macomia e Muidumbe. Em resposta às crescentes ameaças, foram estabelecidas escoltas armadas entre Macomia Sede e Oasse para garantir que a assistência humanitária chegue aos necessitados.
Foi prestada assistência agrícola a 1.765 pessoas afectadas pelo conflito, 18.850 pessoas afectadas por ciclones e 25.650 beneficiários em resposta aos impactos da seca. Por outro lado, foi prestada assistência às actividades de geração de renda a cerca de 1.015 pessoas como parte de um programa de desenvolvimento.
Actualmente, há uma preocupação significativa relativa a escassez de recursos para a resposta humanitária na sequência de cortes no financiamento. De acordo com a Perspectiva Global Histórias Humanas da ONU, apenas 19 por cento do Plano de Resposta Humanitária de Moçambique para 2025 foi financiado. Dos 352 milhões de dólares solicitados, apenas 66 milhões de dólares foram recebidos, forçando as agências a reduzir as suas metas de resposta em mais de 70 por cento.
O PMA Mozambique, que representa 98 por cento da assistência alimentar humanitária em Cabo Delgado, enfrenta uma grave escassez de recursos para operações de conflito na região norte. A interrupção do fluxo de assistência via transferências monetárias está prevista para Novembro de 2025.
O processo de desenvolvimento de cenários da FEWS NET é utilizado para desenvolver pressupostos baseados em evidências sobre os factores que afectam as condições de segurança alimentar. Isto inclui perigos e anomalias nas condições de segurança alimentar que afectarão o comportamento de alimentos e renda das famílias durante o período de projecção, bem como os factores que podem afectar o estado nutricional. A FEWS NET também desenvolve pressupostos sobre os factores que se espera que se comportem normalmente. Em conjunto, estes pressupostos sustentam o cenário "mais provável". A sequência de formulação de pressupostos é importante; pressupostos primários (por exemplo, expectativas relativas ao clima) devem ser desenvolvidos antes de pressupostos secundários (por exemplo, expectativas relativas à produção agrícola ou pecuária). Os principais pressupostos que sustentam esta análise e as principais fontes de evidências utilizadas para o desenvolvimento dos pressupostos estão listados abaixo.
- Prevê-se que a precipitação de Outubro a Dezembro esteja acima da média no sul de Moçambique, próxima da média na zona centro e abaixo da média no norte. Os ciclones podem estar associados às cheias, que podem ser ainda mais agravadas pela fraca tendência do fenômeno La Niña até Janeiro de 2026.
- Prevê-se que temperaturas acima da média sejam registadas em todo o país até Janeiro de 2026, excepto em algumas áreas do sul da região, que podem apresentar temperaturas acima da média devido ao aumento da probabilidade de precipitação acima da média.
- Prevê-se que a violência por GANEs persista nos próximos meses, afectando principalmente a região sudeste de Cabo Delgado. As acções e movimentações destes grupos poderão criar um clima contínuo de insegurança ao longo do período do cenário. Por outro lado, podem ocorrer ocasionalmente ataques surpresa nas províncias vizinhas de Niassa e Nampula.
- A produção de hortícolas da segunda época poderá estar abaixo da média devido à humidade residual insuficiente, particularmente nas áreas do sul do país. No entanto, em áreas com sistemas de irrigação, os níveis de produção permanecerão normais.
- Prevê-se um início oportuno da época chuvosa e agrícola, e a disponibilidade de trabalho agrícola deverá estar próxima da média. No entanto, devido aos impactos de choques anteriores, os pagamentos pelo trabalho agrícola — tanto em dinheiro quanto em espécie — poderão estar abaixo da média, devido à liquidez reduzida das famílias médias e ricas.
- A difícil situação macroeconómica, marcada pelo aumento do desemprego urbano, deverá persistir durante todo o período previsto. Embora as zonas rurais possam apresentar algum aumento na renda proveniente do trabalho agrícola com o início das chuvas em Novembro, as oportunidades poderão permanecer abaixo da média.
- Na região sul, os preços do milho poderão permanecer acima da média de cinco anos durante todo o período do cenário, com uma margem média de 50 por cento acima do normal. No entanto, nas zonas centro e norte, os preços do milho poderão seguir a mesma tendência observada em Julho, devido à maior disponibilidade em comparação com a região sul. Os preços do arroz, que são determinados principalmente pelas importações, e os preços da farinha de milho, que são influenciados pelo milho importado utilizado no processamento, deverão permanecer relativamente estáveis.
- A assistência humanitária (principalmente a prestada pelo PMA) deverá registar uma interrupção relativamente à assistência via transferências monetárias já em Novembro de 2025 e, início de 2026, no que concerne à assistência em espécie.
Tabela 1.
Principais fontes de evidência que os analistas da FEWS NET incorporaram no desenvolvimento dos pressupostos acima
| Principais fontes de evidência: | ||
|---|---|---|
| Previsões meteorológicas e de cheias produzidas pelo Centro de Previsão Climática da NOAA, USGS, Centro de Riscos Climáticos da Universidade da Califórnia em Santa Bárbara e NASA. | Dados geoespaciais, produtos de imagens satélite, produtos de dados derivados. | O El Niño/Oscilação Sul (ENSO) foi citado na discussão de diagnóstico emitido pelo NOAA (Centro de Previsão Climática/NCEP/NWS) a 14 de Agosto de 2025. |
| Dados sobre eventos de conflito em Cabo Delgado do Gabinete da ONU para a Coordenação de Assuntos Humanitários. | O relatório inclui alguns materiais da Actualização das Principais Mensagens da EWS NET de Julho de 2025 Key Messages. | Planos de distribuição da assistência humanitária dos parceiros do Grupo de Segurança Alimentar. |
| Matriz de Rastreamento de Deslocados da Organização Internacional para Migração (IOM/DTM). | Parte da informação sobre a actividade económica foi citada da Página web do Banco de Moçambique | A redução de 3.9 por cento do PID de moçambique foi citada do artigo incluindo na página web de Club of Mozambique e página wed da Trading Economics. |
| A citação sobre fundos insuficientes para a resposta humanitária foi parcialmente baseada no artigo “Perspectiva Global Histórias Humanas” das Nações Unidas, e PMA Moçambique: Relatório da Situaçãp Externa da Resposta de Emergência (18 de Agosto 2025) | Informação adicional sobre o aumento de ataques em 2025 em Cabo Delgado, citada no Alerta do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados. | Entrevistas com informantes-chave nomedamente extensionistas locais, parceiros de implementação humanitária e líderes comunitários. |
| Revisão da Previsão Sasonal da FEWS NET de Agosto de 2025. | Preços de alimentos monitorados pelo SIMA para Julho de 2025 e Projecções Técnicas Integradas de Preços da FEWS NET para Agosto de 2025 até Janeiro de 2026. | A United States Press Agency (USPA) |
Embora as projecções da FEWS NET sejam consideradas o cenário "mais provável", há sempre um certo grau de incerteza nos pressupostos que as sustentam. Isto significa que as condições de segurança alimentar e seus impactos na segurança alimentar aguda podem evoluir de forma diferente do projectado. A FEWS NET emite actualizações mensais das suas projecções, mas os tomadores de decisão precisam de informação antepada sobre esta incerteza e uma explicação de por que as coisas podem ter um desfecho diferente do projectado. Assim, a etapa final no processo de desenvolvimento de cenários da FEWS NET é identificar rapidamente os principais eventos que resultariam em um cenário alternativo credível e alterariam significativamente os resultados projectados. A FEWS NET considera apenas cenários com uma probabilidade razoável de ocorrência.
De Agosto a Setembro de 2025, os distritos que enfrentaram duas épocas consecutivas de baixa produção agrícola, especialmente nas zonas semiáridas do sul e partes da zona centro, poderão enfrentar Crise (IPC Fase 3). Nestes distritos, muitas famílias pobres que já esgotaram as suas reservas de alimentos, em média, três meses antes do período típico, e com poder de compra abaixo da média, poderão enfrentar dificuldades para satisfazer as suas necessidades alimentares mínimas. Algumas famílias que possuem galinhas ou patos poderão recorrer a um aumento atípico da venda das suas aves para a compra de alimentos. No entanto, um número significativo de famílias pobres não possui animais para venda e poderá adoptar estratégias de sobrevivência baseadas no consumo, que incluem saltar refeições, reduzir o tamanho das refeições e aumentar o consumo de alimentos silvestres.
Nas zonas próximas aos principais corredores de transporte nas regiões sul e centro, mais famílias poderão recorrer ao corte e à queima de carvão para venda aos intermediários que o transportam para os maiores centros urbanos. No entanto, as restrições governamentais impostas no ano passado proíbem o transporte de carvão sem licença, afectando principalmente as famílias mais pobres. Estas famílias produzem pouco carvão e não recebem preferência dos grandes operadores licenciados, resultando em renda abaixo da média desta fonte.
Nas zonas afectadas pelo conflito em Cabo Delgado, a situação volátil e a insegurança persistente continuarão a deslocar milhares de residentes. Algumas pessoas deslocadas poderão ter de se deslocar várias vezes, como aconteceu na sequência do recente ataque no distrito de Chiúre. Estas pessoas são forçadas a abandonar as suas casas, meios de subsistência e reservas alimentares, o que as leva a procurar novas oportunidades de subsistência. Para além da alimentação, estas famílias necessitam de assistência humanitária para reforçar a sua segurança alimentar. Além disso, necessitam de abrigo e serviços de saúde nos centros de acolhimento de deslocados internos. Consequentemente, a insegurança nestas regiões deverá aumentar o número de pessoas que necessitam de assistência emergencial. A Crise (IPC Fase 3) persistirá na maioria dos distritos orientais de Cabo Delgado, com algumas famílias em zonas de difícil acesso a enfrentarem condições potencialmente ainda piores.
Nas áreas menos afectadas por choques nas regiões sul e centro, as famílias poderão registar “Estresse” (IPC Fase 2). Embora estas famílias consigam satisfazer as suas necessidades alimentares mínimas, as mesmas poderão enfrentar desafios para satisfazer as suas necessidades não alimentares, tais como cuidados de saúde, medicamentos para animais e insumos agrícolas. As famílias com acesso a zonas baixas que retêm humidade residual ou com acesso a sistemas de irrigação produzirão hortícolas até o final de Setembro, ajudando a estabilizar os seus níveis de consumo e a manter uma insegurança alimentar aguda Mínima (IPC Fase 1).
De Outubro de 2025 a Janeiro de 2026, a situação de crise (IPC Fase 3) poderá se expandir, à medida que as reservas de alimentos produzidos internamente se esgotarem e as famílias se tornarem cada vez mais dependentes do mercado perante os altos e crescentes preços dos alimentos (típicos da época de escassez), particularmente na zona sul do país.
De um modo geral, as famílias pobres, sem gado para vender e com baixa renda — seja proveniente do trabalho agrícola ou de outras fontes, como a venda de recursos florestais — continuarão a enfrentar Crise (IPC Fase 3) até Janeiro de 2026. Estas famílias poderão ser forçadas a adoptar estratégias de sobrevivência de Crise, como enviar familiares para comer em outros lugares, reduzir o tamanho ou a frequência das refeições, optar por alimentos mais baratos e menos preferidos, priorizar a alimentação das crianças, depender do apoio de familiares ou amigos e do consumo atípico de alimentos silvestres. Poderá haver um aumento no número de crianças retiradas da escola devido à escassez de alimentos, principalmente nas escolas sem refeições.
Nas zonas afectadas pelo conflito em Cabo Delgado, espera-se que a tendência observada no período anterior possa prevalecer até Janeiro de 2026, com vários distritos a continuarem a registar Crise (IPC Fase 3). Os ataques dos grupos armados não estatais poderão afectar novas áreas devido à evolução das táticas da insurgência, que passam do controlo territorial para operações altamente móveis e dispersas. As famílias deslocadas necessitarão de mais tempo para se reinstalarem e retomarem as suas actividades normais nas zonas de acolhimento. Precisarão também de apoio humanitário para aumentar os seus níveis de consumo alimentar e retomar gradualmente as suas rotinas habituais.
Início tardio e irregular das chuvas
O início tardio e irregular da época agrícola 2025/26 pode resultar num atraso na disponibilidade de mão de obra agrícola. Apesar dos salários abaixo da média (tanto em dinheiro quanto em espécie), uma redução significativa na renda pode deteriorar ainda mais os níveis de consumo de alimentos entre as famílias mais pobres, que já dependem do mercado, têm baixo poder de compra e enfrentam dificuldades de satisfazer as suas necessidades alimentares, e também pode resultar num aumento no número de pessoas em Crise (IPC Fase 3), especialmente em áreas do sul de Moçambique.
A ocorrência de ciclones excede as projecções tanto em termos de número como de intensidade.
Um aumento na ocorrência de ciclones pode levar a níveis de insegurança alimentar aguda acima dos esperados. Dependendo das zonas afectadas e do momento específico da época agrícola, os resultados da insegurança alimentar poderão registar um agravamento.
Aumento acentuado dos preços dos alimentos básicos no sul e em áreas afectadas pelo conflito
O aumento acentuado dos preços dos alimentos básicos, particularmente na zona sul, pode agravar a insegurança alimentar aguda, reduzindo ainda mais o poder de compra das famílias pobres e muito pobres dependentes do mercado. Como resultado, pode-se esperar um novo declínio no consumo de alimentos, aumentando o número de pessoas necessitadas, podendo a área permanecer em Crise (IPC Fase 3).
Citação recomendada: FEWS NET. Moçambique Actualização da Perspectiva de Segurança Alimentar Agosto 2025: Resultados de Crise esperados devido ao clima e conflito no norte, centro e sul, 2025.
Este relatório mensal cobre condições actuais assim como mudanças na perspectiva projectada sobre insegurança alimentar neste país. Actualiza a Perspectiva de Segurança Alimentar trimensal da FEWS NET. Mais informações sobre o nosso trabalho aqui.